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Por Geralyn Miller

A imagem multiespectral é capaz de revelar o que não é verdadeiro no rosto mais famoso do mundo?

O sorriso da Monalisa vem hipnotizando o mundo há séculos. Sua expressão sedutora e sua identidade misteriosa foram motivos de grandes especulações e análises. A análise mais recente, realizada pelo cientista francês Pascal Cotte durante um período de dez anos, apresentou uma descoberta interessante: abaixo da Monalisa há uma pintura escondida.

Através do “Método de Amplificação de Camadas” (Layer Amplification Method – LAM), do qual Cotte é pioneiro, raios de uma luz intensa foram projetados na pintura, o que permitiu medir os reflexos nas diferentes longitudes de onda.  

Cotte, uma das únicas duas pessoas a receber a permissão do Louvre para utilizar uma tecnologia de scanner do retrato, disse: “Agora podemos analisar exatamente o que acontece dentro das camadas da pintura, descascando assim como uma cebola, camada por camada da pintura. Podemos reconstruir toda a cronologia da sua criação.”

Sua descoberta causou uma considerável onda de notícias, destacando-se como “uma das histórias do século”. Mas uma nova técnica não garante respostas definitivas. Depende das aplicações e afirmações de Cotte foram recebidas com críticas. O editor de arte, Will Gompertz, disse à BBC que: “Os dados gerados pela tecnología estão abertos à interpretação, a qual deve ser analizada e corroborada pela comunidade acadêmica e de restauradores, não por só um indivíduo. Creio que a decisão do Louvre de não fazer um comentário é contundente.” A tecnologia a qual Gompertz se refere é, principalmente, a imagem multiespectral, que é utilizada em muitas outras indústrias, mesmo que por muitas razões diferentes.

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Há mais para ver do que podemos enxergar

Imagine-se que está lendo A Odisséia, mas as únicas letras que pode entender são b e c. Você teria alguma informação, mas tão incompleta que seria quase inútil. Quando pensamos na parte do espectro electromagnético que é realmente visível para os humanos, a comparação é parecida.

 

Esta pequena parte entre UV (Ultravioleta) e IV (Infrarvermelho) é o que conhecemos como “espectro visível”, e é medido em longitudes de onda entre 380 e 780 nanômetros. O resto do que comumente conhecemos como “bandas espectrais” não é visível para  o olho humano.

À medida que a tecnologia avança, vamos aproveitando mais bandas espectrais em distintas formas em aplicações de visão. Os telescópios de rádio nos ajudam a mapear objetos e energia no espaço através da detecção de ondas de rádio, as quais passam facilmente através da nossa atmosfera. Outro exemplo são os raios-X, com uma frequência que pode passar através dos tecidos de pele e músculos, mas que se repele nos ossos, ideal para radiografias.  

Através da combinação de bandas espectrais, é possível captar diferentes imagens, conhecidas como imagem multiespectral. Por exemplo, os compostos de cores verdadeiras são imagens que representam interpretações naturais para a visão dos olhos, e.g. o oceano em azul, as folhas das árvores em verde, que utilizam cores do espectro visível. Veja a seguinte imagem:

Imagen Multiespectral y la Mona Lisa

 

Os compostos de cores falsas usam tanto as cores de dentro do espectro visível, quanto aquelas que estão fora, como o infravermelho próximo, o ultravioleta e os raios-X. Esta combinação é utilizada em uma grande variedade de dispositivos de imagens, mas seu uso mais comum é em imagens de satélites. Aqui segue um exemplo de uma imagem em cor falsa de Las Vegas:

Imagem cortesia de NASA/GSFC/MITI/ERSDAC/JAROS, y U.S./Japan ASTER Science Team.

Las Vegas vista de satélite.

 

Na imagem acima foram utilizadas três bandas espectrais: vermelha e verde do espectro visível, e infravermelho próximo, do espectro não visível. Esta combinação é ideal para a vegetação, a qual aparece em vermelho porque reflete proeminentemente a luz infravermelha próxima. Também pode ajudar a geólogos a avaliar a saúde de diferentes massas de terra com imagens obtidas por satélites como o Landstat 8, assim como a militares em tarefas de reconhecimento. O grau em que certas substâncias refletem determinadas bandas espectrais é o que denominamos de assinatura espectral de refletância, e utilizam diferentes bandas espectrais de acordo com o objeto ou paisagem a observar.  

Outro uso da imagem multispectral é na observação espacial, especialmente no Telescópio Espacial Hubble, que produziu a maior parte das fotografias espaciais mais icônicas da atualidade. Estas imagens são obtidas justamente por estarem fora da atmosfera terrestre, que absorve a luz infravermelha e ultravioleta e escurece a percepção do espaço. É possível ver claramente a diferença entre uma imagem da famosa nebulosa Cabeça de Cavalo feita de um telescópio comum da terra, e outra obtida pelo telescópio Hubble:

A Nebula Cabeça de Cavalo IC434” por Rawastrodata, e “O Hubble vê a Cabeça de Cavalo em uma Cor Diferente por ESA/Hubble.

O que se esconde debaixo

O uso da imagem multiespectral de Cotte, embora recente e incomum, tem precedentes. Uma equipe de investigadores utilizou um método similar para descobrir uma informação oculta em um mapa de 500 anos, que dizem ter sido utilizado para guiar Colombo em sua famosa viagem ao Novo Mundo, e cientistas britânicos também utilizaram dados de imagens multiespectrais para estudarem sítios arqueológicos costeiros. 

A tecnologia da visão multiespectral tem o potencial para alcançar outras indústrias, e recentemente vem sendo utilizada nas instalações de produção de alimentos para avaliar a qualidade microbiológica da carne. Também é utilizada como uma forma de avaliar a saúde das sementes, que poderiam ser de grande valor para a indústria agrícola.  

O uso prolongado dessa tecnologia pode levar a mais e mais revelações em uma ampla variedade de mercados. Embora as pessoas não estejam completamente convencidas da descoberta de Cotte, seu potencial para descobrir o processo artístico de artistas famosos através das múltiplas camadas de suas pinturas poderia ser uma revelação em si.

Este artigo foi originalmente escrito por nossos fornecedores da Teledyne Dalsa.

 

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